← Blind Spot

Blind Spot · Edição 08 · 12 set 2026

15 mil ÷ 40 mil

Quinze mil pessoas desceram numa cidade de quarenta mil habitantes, durante cinco dias. Proporcionalmente, é como se Belo Horizonte recebesse quase dois milhões de visitantes numa semana. A diferença é que o Carnaval de Salvador não precisa justificar a escolha da cidade. Um festival que se intitula o maior de criatividade e inovação do Brasil, numa cidade do interior de Minas que não aparece em nenhum corredor turístico, precisa.

A resposta que todo mundo dá é o Vale da Eletrônica. O festival está ali porque a cidade é um polo de tecnologia. Só que essa resposta troca uma pergunta por outra. Por que o Vale da Eletrônica está ali?

A resposta está em março de 1959. Uma mulher chamada Sinhá Moreira fundou, naquela data, a primeira escola técnica de eletrônica de nível secundário da América Latina. Ela morreu em 1963 e deixou todo o patrimônio à instituição. Dois anos depois, o INATEL foi criado, a primeira faculdade de telecomunicações do país, com o apoio dela. Póstumo. Ela já não estava viva. A primeira empresa do polo é de 1966. O intervalo entre a escola e a empresa é de uma geração profissional: o tempo de formar o primeiro aluno e de esse aluno abrir a primeira firma.

Hoje, sessenta e sete anos depois da escola, os números mostram uma cidade que não se comporta como uma cidade de quarenta mil habitantes. O PIB per capita é 24% acima da média de Minas Gerais. A proporção de empregos formais sobre a população também é 24% acima. Duas medidas independentes, uma olhando produção e a outra olhando emprego, apontam o mesmo índice. A participação da indústria no tecido empresarial é mais que o dobro da média mineira. O comércio é abaixo da média. Não é uma economia que consome local. É uma economia que produz para fora.

E tem um número que explica por que o festival faz sentido ali: a cidade retém quem forma. No interior, o esperado é que os jovens saiam depois da escola. Em Santa Rita, o índice etário sobe na faixa de 25 a 34 anos. Há mais de seis mil pessoas nessa idade numa cidade de quarenta mil. O festival não escolheu uma cidade qualquer. Escolheu uma que tem a densidade técnica de uma cidade maior dentro do corpo de uma menor.

Quem vai ao HackTown vê a cidade por cinco dias e sai achando que o lugar é assim porque o evento está ali. O evento está ali porque o lugar já era assim. E o lugar é assim porque, em 1959, alguém decidiu que uma escola de eletrônica devia existir onde ninguém pediria uma.

A nuvem tem chão. E às vezes o chão foi posto por uma pessoa, num ano em que ninguém estava olhando.

Na coluna Kernel desta edição, a pesquisa completa: a cadeia que vai da escola à primeira firma, as duas medidas independentes que convergem no mesmo índice, e o ponto onde a herança de 1959 encontra o próprio limite.


← Blind SpotLer o Kernel desta edição →

Blind Spot

Receba a próxima edição na sua caixa.

Toda semana, um ponto cego revelado, e o Kernel fechando com uma leitura de mercado maior.

Gratuito · um e-mail por semana · sair é um clique · Ricardo Amaral · Brevvi

Clique em 'Aceitar tudo' para concordar com o uso de cookies e tecnologias similares para melhorar sua navegação, segurança, análises e personalização.