Em março de 1959, Luzia Rennó Moreira, a Sinhá Moreira, fundou a ETE FMC, a primeira escola técnica de eletrônica de nível secundário da América Latina. Mesmo falecendo quatro anos depois, deixando todo o seu patrimônio à instituição, o seu outro projeto, a faculdade INATEL, iniciado ainda enquanto viva, foi lançado em 65 e se tornou a primeira instituição de ensino superior em telecomunicações do país.
E assim nasceu o Vale da Eletrônica.
Fundou uma, e a segunda cresceu sem ela. É um efeito que começa a operar depois da morte de quem o produziu. Uma semente não precisa continuar viva para que a árvore exista.
O intervalo entre a escola e a primeira empresa mede exatamente uma geração profissional. A primeira firma do polo é de setembro de 1966: sete anos depois da escola, um ano depois da faculdade. É o tempo de formar o primeiro aluno e de esse aluno abrir a primeira firma.
Depois vieram as ondas, dez empresas nos anos 1970, doze nos anos 1990, vinte nos anos 2000. Hoje o sindicato da indústria local lista 68 associados, e há cerca de 30 empresas da cadeia eletrônica num raio de 30 quilômetros. A instituição precedeu a empresa, a empresa precedeu o polo, e o polo virou o que nenhum dos fundadores planejou: um campo de gravidade.
Uma semente não precisa continuar viva para que a árvore exista.
E é a gravidade que produz o número que contradiz a expectativa de qualquer cidade do interior. O padrão conhecido é a evasão. Geralmente, cidades do interior formam jovens e os perdem para a capital assim que eles se formam. Se fosse esse o caso em Santa Rita, o índice etário da cidade contra Minas Gerais cairia depois dos 24 anos. Ele sobe. A faixa etária de 15 a 19 anos tem índice 100 contra o estado. A de 20 a 24, índice 102. A de 25 a 29, 102. A de 30 a 34, 104. São 6.283 pessoas entre 25 e 34 anos numa cidade de 40.635. O INATEL forma cerca de trezentos engenheiros por ano, e uma parte deles não vai embora graças ao legado do Vale da Eletrônica.
Não vai embora porque tem onde ficar. A retenção aqui não é política pública nem apego ao lugar: é consequência de uma economia que consome os próprios formados. A escola forma o engenheiro, o polo que a escola semeou absorve o engenheiro, e o ciclo se fecha. A prova de que a cidade emprega, e não apenas forma, está na convergência de duas medidas independentes.
O PIB per capita é de R$ 58.879, cerca de 24% acima da média mineira, índice 124. A proporção de vínculos formais sobre a população é de 29,6%, contra 23,9% do estado, também índice 124. Uma medida olha a produção, a outra olha o emprego, e as duas apontam para o mesmo número. Quando não se pode fazer experimento, convergência é a prova mais forte que a estatística oferece. A cidade é rica para o seu porte, e é rica porque emprega.
A especialização confirma a direção. A indústria de transformação aparece com índice 224 contra a proporção mineira, mais que o dobro. Informação e comunicação, 228. É um polo real, concentrado justamente no que a escola de 1959 ensinou a fazer.
A leitura honesta precisa dizer onde a gravidade é frágil. A base da economia pulveriza sem que o tecido industrial cresça. Das 2.449 empresas ativas no município, 2.011 têm entre zero e quatro pessoas, e essa faixa cresceu 65% em três anos. O que demonstra o espírito empreendedor da cidade.
No topo, 22 empresas com cem ou mais funcionários respondem por cerca de 40% dos 14.378 postos formais. A base cresceu, o topo congelou.
A órbita que retém os jovens hoje depende de um topo que parou de adicionar empresas. É o ponto onde a herança de 1959 encontra o seu limite: uma semente explica a floresta que existe, não garante a renovação dela.
Fica, por fim, uma coincidência grande o suficiente para ser nomeada e pequena o suficiente para não ser afirmada. A praça cuja instituição de origem foi criada por uma mulher em 1959 apresenta hoje participação feminina na ocupação acima da média do estado, 46,01% contra 43,58%, índice 106.
Na base da pirâmide salarial, a razão de rendimento entre mulher e homem também supera a do estado. Mas anomalia não é causalidade. A hipótese de um efeito fundador sobre o empreendedorismo feminino segue em aberto, e o teste que falta não é a ocupação, é o quadro de sócios das empresas.
Santa Rita é uma cidade que segura os seus jovens, uma cidade que construiu o caminho para onde eles pudessem seguir.
Ricardo Amaral · Brevvi
