Toda vez que este mundo delegou trabalho de verdade, a promessa foi velocidade e o resultado foi organograma.
O tear mecânico foi vendido como um jeito de tecer mais rápido. Não foi isso que aconteceu. Ele não deixou o tecelão veloz, ele extinguiu o tecelão e inventou o operador de tear, que é uma pessoa que não sabe tecer e sabe outra coisa. A profissão nova não existia na conta de ninguém quando a máquina foi comprada.
A planilha eletrônica foi vendida como uma calculadora que não erra. O que ela fez foi acabar com o escriturário que passava o dia recalculando coluna, e criar o analista financeiro, que passa o dia perguntando "e se". Ninguém comprou a planilha para inventar uma função nova. Compraram para economizar tempo. A função nova veio junto, de graça, e revirou o andar inteiro.
É perguntar quanto o carro economiza de aveia.
O padrão se repete com uma regularidade quase entediante. A onda chega vendida como eficiência, porque eficiência é o que se sabe medir. O mercado calcula o retorno em horas economizadas, aprova o investimento, e depois passa cinco anos descobrindo que o que mudou não foi o custo da tarefa. Foi quem senta onde.
E aí está o reflexo que interessa. Medir a economia de minuto é medir a onda anterior com a régua da onda anterior. É perguntar quanto o carro economiza de aveia.
A IA está exatamente nesse ponto agora. As apresentações que circulam nesse mercado contam horas economizadas por profissional por semana, porque é o número que cabe no slide. É uma conta honesta e é a conta errada.
A pergunta que vale não é o que a IA faz por você. É qual cadeira ela desocupa, e qual cadeira ela cria. A primeira metade dessa pergunta o mercado já está respondendo, com medo. A segunda metade quase ninguém está fazendo, e é onde a próxima década de vantagem vai morar.
Ricardo Amaral · Brevvi
