Toda vez que uma tecnologia nova chega neste mercado, ela entra pela mesma porta. Não a porta da reinvenção, a da eficiência. A pergunta que se faz na primeira reunião é quase sempre a mesma: como isso me faz correr mais rápido no que eu já faço? É uma pergunta honesta, e é ela que atrasa a virada.
Todo mercado de tecnologia de marketing repete esse reflexo diante de uma inovação: absorve primeiro como jeito de fazer mais rápido aquilo que já fazia. O banner virou programático, o dado virou DMP, a automação virou stack. Cada onda entrou pela porta da eficiência, e só depois alguém percebeu que dava para reconstruir a operação a partir dela.
A IA está nesse primeiro estágio agora. Entrou como acelerador do relatório, da leitura, da apresentação. Topo. Camada.
A história desse mercado mostra um padrão: a virada nunca vem de quem usa a ferramenta para correr mais rápido. Vem de quem a coloca embaixo da operação e reescreve o que roda em cima.
A virada nunca vem de quem usa a ferramenta para correr mais rápido.
O cyberespaço não nasceu de uma internet mais veloz. Nasceu quando alguém parou de tratar a rede como um cano por onde a informação passa e começou a tratar como um território onde se constrói.
Há uma nota de rodapé dessa cultura que cabe aqui. O primeiro easter egg da história do software estava escondido num jogo de 1979: uma sala secreta que só abria quando o jogador levava um objeto quase invisível até o ponto certo. Estava lá o tempo todo. Faltava a combinação. A base de um cliente é assim: a sala já existe, o que faltava era o comando que abre.
O ponto cego da vez tem esse formato. A pergunta não é quão rápido a IA te deixa. É o que passa a ser possível quando ela desce do topo e vira fundação.
Ricardo Amaral · Brevvi
